Para quem ainda
desconfia que Vitória é loba em pele de cordeiro, um aviso: a viúva,
vivida por Cláudia Abreu em Belíssima não é "cachorra", não. Pelo menos
é o que afirma a atriz, que não tem dúvidas sobre o caráter da
personagem e descarta a possibilidade da Vitória ser tão má quanto a
Laura, a inesquecível megera de Celebridade. Mas o envolvimento de
Vitória com o vilão André (Marcello Antony) tem deixado muita gente com
a pulga atrás da orelha.
- É bom para a novela
que exista a polêmica, instiga o interesse. Até onde sei ela não tem
fraqueza de caráter. Mas está num momento vulnerável afetivamente. André
é muito envolvente e sedutor. - diz Cláudia.
A atriz acha que
Vitória pode ser mais uma vítima do jogo de sedução em que se meteu para
ajudar a amiga Júlia (Glória Pires) a desmascarar o vilão e reaver a
fortuna roubada por ele. Apesar do risco, Cláudia não acredita que a
personagem seja capaz de trair a empresária e o grego Nikos (Tony
Ramos).
- Defendo a honestidade
da Vitória. O que é interessante nessa história é mostrar as
ambigüidades e a fraqueza do ser humano. Ela é de carne e osso, erra,
não é uma heroína perfeita - diz a atriz - Nunca suspeitei dela.
Dúvida Cláudia Abreu
teve assim que terminou de gravar Celebridade. Ela foi convidada
por Glória Perez para viver Sol, a protagonista de América.
Apesar da personagem ser oposta à vilã de Gilberto Braga - tudo o que
ela queria - acabou não aceitando o convite, porque passaria mais tempo
afastada da filha Maria, de 5 anos, e do marido José Henrique Fonseca,
com quem está casada há dez anos. Entre o trabalho e a família, naquele
momento, optou pela segunda.
- Vinha de outra novela
e tinha uma filha pequena. Achei que não ia corresponder - explica ela.
- É difícil fazer escolhas na profissão. Às vezes, você quer, mas o
corpo não acompanha, e a vida pessoal fica sem espaço.
A volta em Belíssima
veio na hora certa. A atriz já queria trabalhar com o autor Sílvio de
Abreu e com a diretora Denise Saraceni, que lhe fizeram o convite. Sem
falar que a personagem era boa, com um toque de tragédia grega, e o
elenco, de primeiríssima.
- Tony Ramos, Fernanda
Montenegro, Glória Pires são totens! Parece que estou na Disney! Olho
para o lado e vejo o Mickey, o Pateta... - exalta. - Eu me senti como se
estivesse fazendo uma pós-graduação. Quando você vê pessoas mais
experientes, fica mais atenta, eles não te deixam relaxar.
Para ela tanto faz com
quem Vitória irá terminar na trama, se com o mecânico Pascoal (Reynaldo
Gianecchini) ou com o mau caráter André.
- O que importa é a
troca, o jogo com o Giane e a Cláudia Raia (sua amiga desde a novela
O Outro). - afirma. - Costumo dizer que somos da mesma enfermaria,
meio doidos, perfeccionistas, obsessivos, tentando fazer o melhor
possível.
Um dos grandes
encontros da atriz foi com Tony Ramos. Os dois já tinham feito um
episódio da série A Vida Como Ela É, mas não chegaram a
contracenar. O ídolo que ela sempre admirou desde criança revelou-se
ainda melhor:
- Sempre ouvia falar
que ele é um bom companheiro, bom caráter. E quando a gente conhece a
pessoa, acha que sabe tudo sobre ela. Mas o Tony é ainda melhor. É
parceiro, tem um afeto enorme. Se tenho dúvida, estou angustiada ou
insegura por algum motivo, falo com ele. É uma pessoa para se levar a
vida toda.
Cláudia desconfia de
rótulos. Ser apontada como uma das melhores atrizes de sua geração não é
algo que ela leve muito a sério. Sabe que qualquer deslize vem seguido
de críticas e cobranças:
- Todo mundo acha
alguma coisa de você. Não tenho ilusão de achar que sou unanimidade. O
jogo nunca está ganho.Você tem sempre que conquistar alguém ou
reconquistar todos a cada trabalho. - diz ela, que começou a carreira no
teatro e aos dezesseis anos estreou sua primeira novela, Hipertensão
(1986), na Globo.
Além de gravar e de
cuidar da filha e do marido, a atriz carioca, de 35 anos, encontra tempo
para freqüentar o quinto período do curso de Filosofia da PUC, no Rio.
Estava grávida quando prestou o vestibular em 2000.
- Senti vontade de
estudar, ampliar meus conhecimentos, porque comecei a trabalhar muito
cedo. Achei que filosofia me faria ver as coisas de outro ângulo. Mas
poderia ter feito psicologia, letras ou história. Vou concluir o curso
em sete anos, porque não tenho como fazer seis aulas por período -
conta.
O que mais incomoda a
atriz hoje é a invasão de privacidade. Ela diz que se considera uma
"pessoa absolutamente normal" e que leva uma vida comum:
- Adoraria ser atriz
sem que isso me roubasse o anonimato. Aonde eu vou, na praia ou na
Lagoa, tem um fotógrafo atrás. Estou o tempo todo sendo vigiada. Acho
que perderam o limite. A qualidade de vida fica ruim quando você se
sente vigiado.
Mas conciliar a
carreira, o casamento e o papel de mãe já não é mais um bicho de sete
cabeças para a atriz. Ela conta com a ajuda do marido para tomar conta
da pequena Maria. Todo tempo que lhe sobra é destinado à filha.
- Saber que ela está
com o pai me consola, mas não muito. Existe a angústia de querer estar
com o filho. É uma coisa que toda mãe que trabalha fora passa. - diz
ela, que quer ter mais um filho. - Mas, por enquanto, está só na escala
do desejo.
Paulo Ricardo
Moreira
Fonte: Jornal O
Globo
Revista da TV