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Cláudia Abreu fala da vida agitada que
tem fora de cena e do prazer da maternidade, desfaz a imagem de
séria e se irrita quando tem sua intimidade invadida: "O Rio se transformou num'Big Brother' de uma forma voraz".
ENERGIA PURA
texto marcelle carvalho
foto Fábio guimarães
Quem vê Cláudia Abreu conversando e andando pelos corredores do Projac, de um jeito tranqüilo, não imagina que a atriz está sempre a
mil por hora. Ao mesmo tempo em que está linda e loura no estúdio da
novela Belíssima, dando vida à personagem Vitória, ao sair de
cena, Cláudia já está ligada em seus outros afazeres: os domésticos.
— É uma relação esquizofrênica com a vida, tenho que ser 30 pessoas
ao mesmo tempo. Sou exigente comigo mesma, me cobro em ser a melhor
dona de casa, orientar como será o cardápio. Nos intervalos de
gravação, ao mesmo tempo em que estou estudando o texto, ligo para
saber se a Maria e o Zé estão bem, se o almoço foi bom. Quando vejo,
estou a 220 volts — conta Cláudia, mãe de Maria, de 4 anos, fruto do
casamento de quase dez anos com o cineasta José Henrique Fonseca.
Mas a correria não pára por aí. Além de mãe, mulher, profissional, a
atriz ainda arruma tempo para freqüentar o curso de Filosofia da
PUC, desde 2000.
— Quero ser uma boa aluna, estudar, ler tudo o que é pedido. Levo
sempre na bolsa um livro para ler quando tenho um intervalo. Não
quero ser uma aluna superficial. Senão não tem sentido fazer
faculdade, estar lá na PUC às 7h — diz Cláudia.
A agitação em sua vida, segundo ela, é reflexo do dia a dia da
mulher moderna.
— Você tem que estar ligada em tudo para dar conta dessa empresa que
é sua vida. Às vezes, sou mais eficiente. Outras, menos. Tem horas
em que me sinto competente, completa, feliz. Já em outras, me acho
uma droga — comenta Cláudia.
Com tantas atribuições, pode parecer que Cláudia, aos 35 anos, é
muito séria para sua idade. Impressão que ela insiste em desfazer:
— Pode ser que as pessoas me achem séria porque faço faculdade de
filosofia, que sou “cabeça”. Sou séria na maneira como me coloco nas
coisas, mas Deus me livre de não ter alegria na vida, não ter
gaiatice, senso de humor! O bacana da vida é entender o valor das
pequenas coisas. Não gosto de me levar a sério, de só ter
obrigações.
Mas há uma que lhe dá absoluto prazer: a maternidade.
— Ser mãe dá um sentido à vida. Você tem um projeto que é formar
aquela pessoa, criar cumplicidade, mostrar o mundo. Você se redescobre através de um filho. É onde a vida vale a pena — explica.
Discreta em sua intimidade — 'sei que faz parte, mas não tenho
necessidade de ficar o tempo todo exposta' —, Cláudia fica
incomodada quando tem sua vida invadida.
— O Rio se transformou num Big Brother de uma forma voraz. Não
posso brincar na praia ou na Lagoa com a minha filha, senão, na
semana seguinte, está na revista. Você tem a sensação de que está
sendo vigiado, que está tendo sua intimidade roubada. Sou atriz
porque gosto de representar, não sou atriz nas horas em que quero
estar quieta, na minha. Parece que você tem obrigação de estar
permanentemente vendida. Parece que vendeu a alma para o diabo —
desabafa Cláudia.
Para tentar encontrar seu eixo, a atriz tem as suas táticas:
— Uma vez por semana faço minha massagem. Quando vou a Petrópolis
mergulho na cachoeira e acendo um incenso. Às vezes consigo meditar
e tenho vontade de fazer ioga. Com essa vida corrida, preciso de um
tempo para me centrar.
Saber equilibrar carreira e vida pessoal é uma arte com que Cláudia
teve que aprender a lidar. Tanto que, quando foi fazer o filme O caminho das nuvens (2003) e precisou passar dois meses no sertão,
em Juazeiro do Norte, ela levou sua pequena Maria, então com 1 ano e
meio.
— Meu quarto no hotel virou um acampamento. Coloquei um fogareiro
elétrico no meio da suíte, levei babá, fiz um circo. Tudo é uma
questão de pesar o quanto o trabalho instiga você e o quanto você
está disponível para ele — conta.
Mas houve um momento em que Cláudia teve que dar mais peso a um lado
do que ao outro. Recém-saída da antológica personagem Laura, de Celebridade, a atriz foi convidada por Glória Perez para
ser a Sol de América. Cláudia chegou a aceitar, até porque iria ter um
personagem oposto à vilã de Gilberto Braga. Mas percebeu que a
odisséia que seria a preparação para “América” não a deixaria ter
tempo para a vida em família.
— Tento cavar espaço para minha vida pessoal, até para não ficar
sugada. Em América não haveria espaço algum para ela, porque as
condições de trabalho eram muito exigentes. Antes de ter filho e me
casar, poderia ter esse tipo de postura, de falar 'é meu trabalho e
acabou'. Mas agora, já me coloco de maneira diferente. Não é só meu
trabalho que existe na minha vida, não posso ser egoísta com a minha
família — diz.
Com duas novelas de descanso, Cláudia sentiu que estava na hora de
voltar quando foi chamada para fazer “Belíssima”:
— Quando Silvio de Abreu e Denise Saraceni (diretora) me chamaram,
tudo encaixou perfeitamente. Já tinha descansado de Celebridade, tinha feito um filme,
Os desafinados, do Walter Lima Jr., e estava
disponível. Foi uma coincidência feliz.
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