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Imprensa

 

Entrevista ao Jornal Extra

CLÁUDIA ABREU ESTÁ LONGE DE SER SOFRIDA COMO SUA PERSONAGEM VITÓRIA EM BELÍSSIMA. ELA NÃO PERDE O BOM HUMOR NEM POR TER QUE SE DIVIDIR ENTRE AS GRAVAÇÕES DA NOVELA E OS PAPÉIS DE MÃE, DONA-DE-CASA E UNIVERSITÁRIA. “DEUS ME LIVRE NÃO TER ALEGRIA NA VIDA!”, DIZ.
04/12/2005

Cláudia Abreu fala da vida agitada que tem fora de cena e do prazer da maternidade, desfaz a imagem de séria e se irrita quando tem sua intimidade invadida: "O Rio se transformou num'Big Brother' de uma forma voraz".



ENERGIA PURA


texto marcelle carvalho
foto Fábio guimarães



Quem vê Cláudia Abreu conversando e andando pelos corredores do Projac, de um jeito tranqüilo, não imagina que a atriz está sempre a mil por hora. Ao mesmo tempo em que está linda e loura no estúdio da novela Belíssima, dando vida à personagem Vitória, ao sair de cena, Cláudia já está ligada em seus outros afazeres: os domésticos.

— É uma relação esquizofrênica com a vida, tenho que ser 30 pessoas ao mesmo tempo. Sou exigente comigo mesma, me cobro em ser a melhor dona de casa, orientar como será o cardápio. Nos intervalos de gravação, ao mesmo tempo em que estou estudando o texto, ligo para saber se a Maria e o Zé estão bem, se o almoço foi bom. Quando vejo, estou a 220 volts — conta Cláudia, mãe de Maria, de 4 anos, fruto do casamento de quase dez anos com o cineasta José Henrique Fonseca.

Mas a correria não pára por aí. Além de mãe, mulher, profissional, a atriz ainda arruma tempo para freqüentar o curso de Filosofia da PUC, desde 2000.

— Quero ser uma boa aluna, estudar, ler tudo o que é pedido. Levo sempre na bolsa um livro para ler quando tenho um intervalo. Não quero ser uma aluna superficial. Senão não tem sentido fazer faculdade, estar lá na PUC às 7h — diz Cláudia.

A agitação em sua vida, segundo ela, é reflexo do dia a dia da mulher moderna.

— Você tem que estar ligada em tudo para dar conta dessa empresa que é sua vida. Às vezes, sou mais eficiente. Outras, menos. Tem horas em que me sinto competente, completa, feliz. Já em outras, me acho uma droga — comenta Cláudia.

Com tantas atribuições, pode parecer que Cláudia, aos 35 anos, é muito séria para sua idade. Impressão que ela insiste em desfazer:

— Pode ser que as pessoas me achem séria porque faço faculdade de filosofia, que sou “cabeça”. Sou séria na maneira como me coloco nas coisas, mas Deus me livre de não ter alegria na vida, não ter gaiatice, senso de humor! O bacana da vida é entender o valor das pequenas coisas. Não gosto de me levar a sério, de só ter obrigações.

Mas há uma que lhe dá absoluto prazer: a maternidade.

— Ser mãe dá um sentido à vida. Você tem um projeto que é formar aquela pessoa, criar cumplicidade, mostrar o mundo. Você se redescobre através de um filho. É onde a vida vale a pena — explica.

Discreta em sua intimidade — 'sei que faz parte, mas não tenho necessidade de ficar o tempo todo exposta' —, Cláudia fica incomodada quando tem sua vida invadida.

— O Rio se transformou num Big Brother de uma forma voraz. Não posso brincar na praia ou na Lagoa com a minha filha, senão, na semana seguinte, está na revista. Você tem a sensação de que está sendo vigiado, que está tendo sua intimidade roubada. Sou atriz porque gosto de representar, não sou atriz nas horas em que quero estar quieta, na minha. Parece que você tem obrigação de estar permanentemente vendida. Parece que vendeu a alma para o diabo — desabafa Cláudia.

Para tentar encontrar seu eixo, a atriz tem as suas táticas:

— Uma vez por semana faço minha massagem. Quando vou a Petrópolis mergulho na cachoeira e acendo um incenso. Às vezes consigo meditar e tenho vontade de fazer ioga. Com essa vida corrida, preciso de um tempo para me centrar.

Saber equilibrar carreira e vida pessoal é uma arte com que Cláudia teve que aprender a lidar. Tanto que, quando foi fazer o filme O caminho das nuvens (2003) e precisou passar dois meses no sertão, em Juazeiro do Norte, ela levou sua pequena Maria, então com 1 ano e meio.

— Meu quarto no hotel virou um acampamento. Coloquei um fogareiro elétrico no meio da suíte, levei babá, fiz um circo. Tudo é uma questão de pesar o quanto o trabalho instiga você e o quanto você está disponível para ele — conta.

Mas houve um momento em que Cláudia teve que dar mais peso a um lado do que ao outro. Recém-saída da antológica personagem Laura, de Celebridade, a atriz foi convidada por Glória Perez para ser a Sol de América. Cláudia chegou a aceitar, até porque iria ter um personagem oposto à vilã de Gilberto Braga. Mas percebeu que a odisséia que seria a preparação para “América” não a deixaria ter tempo para a vida em família.

— Tento cavar espaço para minha vida pessoal, até para não ficar sugada. Em América não haveria espaço algum para ela, porque as condições de trabalho eram muito exigentes. Antes de ter filho e me casar, poderia ter esse tipo de postura, de falar 'é meu trabalho e acabou'. Mas agora, já me coloco de maneira diferente. Não é só meu trabalho que existe na minha vida, não posso ser egoísta com a minha família — diz.

Com duas novelas de descanso, Cláudia sentiu que estava na hora de voltar quando foi chamada para fazer “Belíssima”:

— Quando Silvio de Abreu e Denise Saraceni (diretora) me chamaram, tudo encaixou perfeitamente. Já tinha descansado de Celebridade, tinha feito um filme, Os desafinados, do Walter Lima Jr., e estava disponível. Foi uma coincidência feliz.

 

Jornal: EXTRA

Editoria: Cultura Página: 6

Edição: 1

Tamanho: 932 palavras

Caderno: Canal Extra